quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Ciclos ou Séries?

O Secretário de Educação do Estado de São Paulo e um assessor publicaram no dia 03/09 no jornal Folha de São Paulo artigo informando e justificando diversas medidas que estão sendo tomadas para, segundo os autores, promover melhorias na qualidade educacional das escolas estaduais.
Um parágrafo chamou minha atenção, em particular: “Escola de qualidade social, qualquer que seja sua organização, é a que responde às urgências da sociedade brasileira neste início do século 21. É aquela na qual as demandas dos alunos constituem o principal referencial para desenvolver práticas curriculares direcionadas a aprendizagens significativas.”
A expressão “qualquer que seja sua organização” foi a causa de meu espanto. Os autores se referiam à estrutura do ensino: em séries ou em ciclos. E argumentam: “Mas a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo há muito entende que a forma de organização do ensino por si só não determina o sucesso da aprendizagem escolar nem a qualidade social da escola.”

Tenho que discordar. E justifico minha posição: uma escola seriada – que implica, por definição, na aprovação ou retenção dos alunos no final de cada ano letivo – é um dos empecilhos mais potentes para alcançar a qualidade social sugerida pelos autores no primeiro parágrafo transcrito acima. Herança do paradigma de escola tradicional que predominou no sistema educacional brasileiro até muito pouco tempo, a seriação já comprovou à exaustão seu caráter seletivo.

A organização da escola em ciclos, por seu lado, mostrou que possibilita práticas curriculares direcionadas a aprendizagens significativas muito mais consistentes e eficazes. Entretanto, para obter esses resultados é preciso respeitar alguns requisitos. Aponto os três que considero mais importantes:
1. O aluno precisa ser continuamente acompanhado durante toda sua escolarização e não apenas no final de cada ciclo para saber ser será aprovado para o próximo ou não.
2. Identificada alguma dificuldade de aprendizagem, o aluno deve receber imediatamente o apoio, reforço, recuperação ou qualquer outro mecanismo de superação. Dessa forma, seus avanços não ficarão impedidos e, no final de cada ciclo, estará apto para seguir adiante. Essa é a sistemática que concretiza a progressão continuada (eliminando a promoção automática e seus efeitos desastrosos para a formação das crianças e jovens).
3. As escolas e os seus educadores precisam ter garantidas as condições e os recursos necessários para efetivar o acompanhamento constante e promover o apoio imediato para TODOS os alunos com alguma dificuldade de aprendizagem.
Finalmente, não é qualquer organização do ensino que vai contribuir para a qualidade social da escola pública. A escolha entre ciclos e séries é uma opção política e, como tal, influencia decisivamente os processos educacionais.

7 comentários:

  1. Rosely Quelho Atanes14 de setembro de 2013 14:14

    Mais uma modificação na estrutura acaso garante a melhoria na qualidade de ensino? Após tantas alterações na nomenclatura e organização qual o real avanço obtido?
    A visão política da Educação é bem diferente da realidade vivida pela maioria dos educadores que estão trabalhando nas unidades de ensino, principalmente na sala de aula onde as práticas curriculares direcionadas a aprendizagens significativas devem ser efetivadas.

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    1. É, Rosely, concordo inteiramente com você - é na sala de aula que poderão acontecer práticas curriculares efetivamente comprometidas com as aprendizagens significativas dos nossos alunos. Uma pena que, em geral, os professores não contam com os recursos e os instrumentos necessários para que isso ocorra!

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  2. Rosely Quelho Atanes20 de setembro de 2013 13:32

    É verdade. Muitas vezes até há computadores, Tv, Dvds etc de excelente qualidade nas escolas, porém não há NINGUÉM para auxiliar o professor a utilizar esses recursos. Como um professor de 2º ano pode preparar 35 máquinas e ao mesmo tempo olhar 35 alunos?? É desgastante e não se obtem o resultado esperado. Eles acabam desistindo, claro! Daí vem a propaganda "eleitoreira" dizendo que todas as escolas tem esses recursos disponíveis...

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    1. Rosely, mais uma vez concordo plenamente. Os dilemas que os professores são obrigados a enfrentar são decorrentes, em grande parte, da inexistência de recursos mínimos para uma educação pública de qualidade. Até quando isso vai continuar acontecendo, não?

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  3. Rosely Quelho Atanes25 de setembro de 2013 16:07

    Pois é Carlos... Os recursos destinados à Educação precisam ser aplicados onde de fato são necessários. Esse é o grande "nó" dessa questão... Em função do meu trabalho na Supervisão de Ensino na Rede Pública fica claro o conflito existente entre a opinião dos Educadores e as ações políticas em relação as verbas ( no meu caso o acesso ao cargo de Supervisor de Ensino foi via concurso público para profissionais com experiência em gestão e não um cargo de confiança como ocorre frequentemente).

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  4. Creio que o mais importante é o aprendizado do aluno, seja por ciclo ou por série, o que conta, é se o aluno aprendeu, adquiriu conhecimento significativo, ou não.

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    1. É mesmo, Fabiana, o que importa mais do que tudo é a aprendizagem dos alunos. No entanto, você não concorda comigo: há formas mais propicias e eficazes do que outras para promover a aprendizagem significativa. De minha parte, os ciclos se enquadram nessa categoria, permitem maiores chances às crianças e ao jovens para aprenderem significativamente todo o enorme conjunto de conhecimentos escolares. No regime seriado também há aprendizagens significativas, mas as possibilidades são muito menores, segundo penso. O que você acha?

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