domingo, 29 de julho de 2012

ENSINO DOMICILIAR: QUAL É A VERDADEIRA ESCOLHA?

O portal NET EDUCAÇÃO publicou no dia 27/07 uma reportagem intitulada “Ensino domiciliar: benéfico ou não?” (http://www.neteducacao.com.br – acesso em 27/07/2012). Um texto muito bem escrito traz informações sobre o tema e expõe algumas contribuições que indiquei em uma entrevista e as posições de Fabio Schebella, diretor pedagógico da Associação Nacional de Educação Domiciliar (ANED). O ponto de partida é o relato de uma mãe que optou pelo ensino domiciliar, quando a família transferiu-se para outro país e, neste segundo semestre, está matriculando seus filhos em uma escola. Vale a pena conhecer essa experiência exposta com detalhes. A jornalista divulga também diversos endereços eletrônicos com vídeos e artigos sobre o assunto.

De modo geral, os aspectos abordados na minha entrevista foram tratados perfeitamente na reportagem. Mas, dois não puderam ser extensivamente abordados, provavelmente por falta de espaço e decidi ampliá-los aqui.

O primeiro e mais importante é a verdadeira escolha que os adeptos do ensino domiciliar estão fazendo. No material escrito e nos vídeos, os adeptos da proposta a recomendam como alternativa diante das graves falhas do sistema escolar. Para justificar essa posição, apresentam uma extensa lista das deficiências das escolas. Infelizmente, as críticas, em sua maioria, são procedentes.

No entanto, os autores não reconhecem ou não expressam que há outras possibilidades diante dessas insuficiências do sistema escolar. Eu pergunto, por exemplo: quantas famílias brasileiras estão colaborando intensamente com as escolas de seus filhos para superar suas lacunas? Na reportagem, há uma informação: cerca de mil famílias optaram pelo ensino domiciliar no Brasil. Diante de um país com quase 200 milhões de habitantes, o número é insignificante. Mas isso não é o mais relevante. Essa quantidade deveria ser comparada com o número de famílias que estabelecem efetiva parceria com a escola escolhida para acolher suas crianças.

Alguém poderia argumentar: mas, então, os pais e mães teriam que assumir mais esse encargo, além das inúmeras responsabilidades que já têm no exercício da paternidade/maternidade e de suas obrigações profissionais e sociais? Eu respondo, convictamente: sim. E por quê? Porque essa é a postura que privilegia as soluções consensuais, a participação, a solidariedade diante das necessidades sociais, o respeito pelas diferenças. É a maneira que nós, seres humanos, inventamos para superar o individualismo, os grupos fechados e avessos a pensamentos diversos dos seus. Em síntese: a escolha não é entre o ensino domiciliar X educação escolar. Verdadeiramente, a opção é por um paradigma de encaminhamento para as demandas sociais: de um lado, as parcerias, os acordos, os consensos; de outro, as saídas individuais, os grupos herméticos, as hegemonias excludentes.

Quanto ao segundo aspecto, vou apenas mencioná-lo neste texto, por falta de espaço. Trata-se do nome dessa proposta: educação domiciliar. O termo apropriado é ensino domiciliar. Pois é tão somente o domínio de conteúdos que os adeptos escolhem para transmitir a seus filhos. Voltarei a esse tema em breve.

Um último comentário: não é verdade que inexistem obstáculos legais para o ensino domiciliar. A Constituição Federal, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e o Estatuto da Criança e do Adolescente (para ficar somente com os documentos legais mais importantes) determinam expressamente que as crianças devem ser matriculadas no ensino fundamental a partir dos seis anos. Os pais e responsáveis incorrem em penalidades legais, se descumprirem essa obrigação. Não se trata de terrorismo barato... Pelo contrário, é o compromisso de quem quer ser transparente e verdadeiro.

quinta-feira, 29 de março de 2012

E a recuperação paralela? Vai ou fica?

Estamos acompanhando o noticiário dos últimos dias sobre a proposta da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo: extinguir as aulas de recuperação paralela, oferecidas no período contrário para os alunos com dificuldades de aprendizagem, uma prática vigente desde 1997.
Foi anunciado que haveria um segundo professor para ajudar os alunos durante as aulas no período normal. Mas não para todas as turmas e sim para as que tivessem maior número: 25 ou mais no ensino fundamental I; 30 ou mais no ensino fundamental II; 40 ou mais no ensino médio.

O noticiário revelou que o governador do Estado negou a extinção das aulas de recuperação paralela no contraturno e prometeu explicações mais detalhadas. Elas foram publicadas hoje – dia 29/03/2012. Agora parece que a decisão de promover essas aulas será tomada pelas escolas que “terão de comprovar que possuem salas de aula e professores disponíveis” (Folha de São Paulo, caderno Cotidiano).

Se a ideia original era mesmo a de extinção desse apoio ao aluno com dificuldades, é estarrecedor. Na contramão de tudo o que tem sido veiculado, pesquisado, analisado e proposto, a Secretaria da Educação estaria promovendo um calamitoso retrocesso. Fiquei com muitas indagações quando li a matéria, mas uma foi muito mais forte: um professor que tivesse 39 alunos numa classe de ensino médio, como faria a recuperação paralela durante suas aulas normais?
E não vale responder que isso seria uma situação pouco provável...

Felizmente, há indicações de que a extinção não ocorrerá. Ainda assim, fica uma preocupação: qual será a ação dos órgãos de gestão central e regional do sistema educacional do mais desenvolvido estado brasileiro, se uma escola reconhecer que não tem lugar e/ou professores qualificados para oferecer as aulas de recuperação paralela?

Concordo que a decisão de oferecer essas aulas é mesmo dos educadores de cada escola, em parceria com seus alunos e famílias. É no âmbito da unidade escolar que essa medida tem melhores condições de ser assumida. E a parceria é o melhor antídoto contra a ausência dos alunos nessas aulas.
Mas, os órgãos centrais e regionais precisarão apoiar as escolas com carências (geralmente freqüentadas por alunos também carentes), contratando professores e disponibilizando recursos didáticos e espaços físicos. Vamos acompanhar as próximas notícias (se vierem...)!

sábado, 10 de março de 2012

PROFESSORES REVOLTADOS. E COM RAZÃO!

Recentemente, o portal Terra Educação publicou uma nota sobre a divulgação de resultados de avaliação de desempenho de professores pela prefeitura de Nova York. Envolvendo 18 mil professores, cujos nomes e sobrenomes foram expostos pela publicação na imprensa, a decisão causou forte polêmica entre o prefeito e o sindicato de professores.
Argumentos de um lado e de outro mencionam “sistema pouco confiável”, “danos para as escolas”, “transparência na administração pública”, dentre outros. A reportagem informa: “O desempenho dos professores é qualificado de 0 (baixo) a 99 (alto), de acordo com os resultados obtidos pelos estudantes. O ranking vai de 2007 a 2010”.

Eu não conheço em profundidade o sistema de avaliação mencionado na notícia e, portanto, não é possível uma análise ampla e completa. Entretanto, um aspecto me chamou mais a atenção e sobre ele penso que me é permitido fazer uma reflexão: os resultados obtidos pelos alunos seriam a fonte para análise de desempenho dos professores.

Se efetivamente essa é a realidade, estamos diante de mais uma prática de gestão reducionista, simplista e inconseqüente. Por que essa afirmação tão contundente? São vários os motivos. O mais relevante, em minha concepção, é que não se pode considerar que o desempenho profissional dos educadores seja medido exclusivamente pelos resultados de seus alunos. Pela simples e óbvia razão de que inúmeros outros fatores têm peso e importância nesses resultados. Vamos lembrar alguns? A trajetória escolar do aluno; a cultura da família e seu nível sócio-econômico; o estado físico e/ou emocional e/ou cognitivo do aluno no momento de medida de suas aprendizagens; o nível de qualidade dos instrumentos de avaliação... Enfim, esses são alguns poucos exemplos. Em síntese: não nego que o fator “resultados dos alunos” deva ser considerado na análise de desempenho dos professores... Mas, como único critério? É simplificar demais algo tão complexo. Isso, claro, se essa tenha sido a fonte para compor o sistema usado em Nova York.

Aqui no Brasil, por exemplo, as avaliações institucionais promovidas pelo MEC e pelo Conselho Nacional de Educação junto às universidades englobam diversos fatores para definir o nível de cada instituição. Os resultados obtidos pelos alunos no ENADE são incluídos nas análises, mas não unicamente ou isoladamente. Assim também têm procedido os Conselhos Estaduais e Municipais de Educação que conheço, quando se trata de analisar o desempenho de escolas de educação básica.

Há um último agravante na publicação de Nova York. Lá, como cá, está cada vez mais usado o ranqueamento de instituições e de pessoas. No caso em foco, 18 mil educadores foram distribuídos em um ranking “com nome e sobrenome”, segundo a notícia. Lamentável! Essa autêntica “febre” de classificação de elementos totalmente díspares, existentes em contexto completamente diferentes, desconhece a mais simples regra para uma avaliação competente: não comparar situações, pessoas e organizações como se todas fossem iguais.

Ou, para usar o dito popular: “não se pode colocar tudo num mesmo saco”. Todos nós, educadores, sabemos como as condições de trabalho e a cultura institucional de uma escola (para falar de somente dois importantes aspectos) são diferentes de outra, ainda que existam elementos comuns. Mas, certamente, insuficientes para avaliar o desempenho docente como se todas as escolas fossem iguais.
Parece que alguns dirigentes educacionais é que precisam aprender essa importante lição de gestão... E (por que não?) de vida.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Seminário: Estratégias em gestão escolar: identidades e competências

O foco deste seminário é a competência estratégica. Uma capacidade muito valorizada em ambientes em constante mudança, como os que se configuram nas instituições de ensino e no setor educacional como um todo. Esta competência abrange a amplitude de visão, nas escolhas, na eleição de prioridades, na formulação de planos, nas ações e seus resultados.
O processo e os instrumentos para atuar estrategicamente são pouco compartilhados nas escolas e nas oportunidades de formação de educadores. O objetivo é ampliar a consciência dos participantes sobre seu papel e o poder que exercem, instrumentando-os para lidar com seus recursos e capacidades, de forma que a instituição atinja melhores resultados.
Composto de quatro encontros, o seminário está estruturado para gestores escolares atuantes e interessados em investir nessa competência. É, também, uma oportunidade para profissionais de educação que desejem atuar nessa área, futuramente.
No dia a dia das instituições de ensino, as fronteiras entre as competências pedagógicas, políticas e estratégicas são pouco definidas. Na prática, sabe-se que são igualmente importantes para gerir equipes, projetos e recursos. Estas competências, se alinhadas, qualificam a ação desse profissional, num contexto de desafios sociais, culturais e econômicos.

Programa
Encontro 1 - Quem é o gestor escolar?
Hoje, o gestor escolar é um profissional com formações diversas e muitas vezes, insuficiente, que opera em situações complexas. Sua atuação, geralmente pouco compartilhada, se dá num campo de acordos e conflitos, ao lidar com diferentes e legítimos interesses e, às vezes, contraditórios.

Encontro 2 - Problemas: suas causas, consequências e tendências
A análise situacional é uma ferramenta para delinear problemas e oportunidades da instituição. Problemas são indicadores de insatisfação em relação a aspectos estruturais da escola, de seus profissionais ou do ambiente externo. Ao identificar causas, consequências e tendências dos problemas formulam-se intenções e encaminham-se soluções e cenários futuros. É o ponto de partida da competência estratégica.

Encontro 3 - A competência estratégica
Mais que um plano, a estratégia hoje é vista como uma prática. Pensar e agir estrategicamente alia a capacidade de dar sentido e direção para decisões e ações conectadas a contextos internos e externos. Esta articulação se amplia a partir de uma cultura de planejamento e conversação estratégica. Esta prática prepara a tomada de decisões e forma equipes para ações que são individuais e, ao mesmo tempo, coletivas.

Encontro 4 - Os instrumentos da prática estratégica
A formulação e execução do plano estratégico é um desafio anual e constante. Deve prever um acervo de informações e dados, uma dimensão prospectiva e diferentes níveis de participação dos diversos atores sociais. Define objetivos, metas e indicadores. É uma prática que gera resultados, quando possibilita um diálogo entre o plano e a realidade.

Coordenadores
BEATRIZ BLANDY é Diretora da Prática, Gestão e Estratégia, consultoria com foco em negócios de inteligência e inovação. Mestre em Estratégia pela PUC-SP, com a dissertação “O processo estratégico em médios negócios paulistanos: o percurso do plano à prática”. É co-autora do livro “Aprendizagem do Adulto Professor”. Foi Diretora da Escola Ibeji e Presidente do Interescolas.
www.pratica.etc.br
atendimento@pratica.etc.br

CARLOS LUIZ GONÇALVES. Diretor da CLG Consultoria Educacional. Doutor em Educação pela PUC-SP com a tese “Gestão e participação: subjetividades em relação”. Experiência em direção e coordenação de escolas e professor universitário. Co-autor de “Aprendizagem do Adulto Professor”.
www.carlosluizgoncalves.blogspot.com
carlosluiz.consultor@hotmail.com

Informações
Participantes: Diretores, mantenedores, coordenadores e orientadores de escolas particulares de educação básica e interessados.
Total de participantes: 20.

Datas: 29/02 - 14/03 - 28/03 e 11/04.
Horário: das 19:30hs às 22:30hs.
Local: Instituto ESPLAN – Rua Thomas Carvalhal, 959 – Paraíso
Inscrições: até 27/02, mediante preenchimento da ficha de inscrição solicitada pelos endereços atendimento@pratica.etc.br ou esplan@uol.com.br ou pelos telefones (11) 3885-0931 e 3885-0982.
Investimento: três parcelas de R$ 400,00 (quatrocentos reais), a primeira na inscrição e as demais nos dias 19/03 e 05/04, por meio de boletos bancários.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Uma parada para descanso

Aos amigos,
Estou iniciando uma parada para descanso. Voltarei a partir de 16 de janeiro do ano que vem.
Desejo a todos vocês um 2012 com muito sucesso, paz e felicidade.
Grande abraço.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Polêmica inútil e desastrosa.

Infelizmente, a data de corte para ingresso no ensino fundamental aos seis anos transformou-se em um conflito desnecessário e prejudicial. Resumidamente, vamos aos fatos:
1. Em 2006, o Congresso Nacional aprovou lei ampliando a duração do ensino fundamental para nove anos e matrícula obrigatória aos seis anos, fixando prazo de implantação até 2010.
2. Em 2008, o Conselho Estadual de Educação de São Paulo estabeleceu o dia 30 de junho como data de corte para essa matrícula nas escolas estaduais e particulares, autorizando ajustes para os anos de 2009 e 2010.
3. Em 2010, o Conselho Nacional de Educação indicou para os conselhos estaduais e municipais o dia 30 de março como data de corte, permitindo que, excepcionalmente em 2010 e 2011, essa norma não fosse observada se a criança tivesse frequentado dois anos de educação infantil. A mesma data de corte foi indicada para matrícula aos quatro anos de idade na classe inicial da pré-escola.
Durante os últimos quatro anos, inúmeros recursos de autoridades educacionais e pais tramitaram nos conselhos e na justiça, questionando essas normas; em muitos deles, os juízes concederam liminar para permitir a matrícula das crianças sem respeitar a data de corte. Atualmente, há ações do ministério público federal para tornar sem efeito essas deliberações do conselho nacional.
É claro que todo esse tumulto está causando muitas incertezas para escolas e pais. Mas, as mais prejudicadas são as crianças, quando deveriam ser consideradas acima de qualquer outra questão. É por isso que a polêmica é desastrosa.

Reconheço: é louvável que os conselhos de educação queiram proteger os alunos de decisões de pais e/ou escolas, antecipando a matrícula no 1º ano do ensino fundamental. Também penso que crianças com cinco anos de idade terão sérios prejuízos em seu desenvolvimento cognitivo, emocional e social se a escolarização for antecipada, salvo uma ou outra exceção. Há muitas pesquisas mostrando que apressar etapas de crescimento é uma prática pouco saudável ao longo da vida.
Mas, por que estabelecer como critério de matrícula unicamente uma data? Que diferença significativa haverá entre uma criança nascida nesse dia e outra, no dia seguinte? Aliás, essa é a argumentação básica da maioria dos recursos impetrados nos conselhos e na justiça.

Não quero ficar somente na crítica. Sugiro encaminhamento usado em algumas escolas nas quais trabalhei: estabelecer uma data limite (30 de junho parece ser a mais indicada para organizar turmas equilibradas quanto a esse quesito), mas permitir que a matrícula de crianças nascidas nos dois meses seguintes seja uma decisão conjunta da escola e da família (podendo haver até a indicação de alguns critérios para essa decisão, por parte dos conselhos de educação). As crianças nascidas a partir de setembro permaneceriam obrigatoriamente na educação infantil.
Minhas experiências com esse encaminhamento mostram que foram raros os casos de conflito entre a posição da escola e das famílias e geralmente as crianças foram poupadas de desgastes inúteis.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

ACABOU O "SABER"

Aos amigos,
Assim, sem mais nem menos, a Folha de São Paulo acabou com a coluna semanal "SABER". Não vi justificativas para a decisão no jornal (pode ter sido falha minha...), mas é uma pena! Nas segundas-feiras, já tinha adquirido o hábito de começar minha leitura por essa coluna. Lamentável!
Os textos do Ricardo Semler e do Fernando Veloso ajudavam muito no acompanhamento e na compreensão de diversos assuntos educacionais. E numa linguagem compreensível mesmo para quem não domine o "pedagogês". Aprendi muito com eles!
O que nos resta, como leitores, a não ser o protesto! Enviei hoje uma mensagem para o jornal, no painel do leitor. Vamos ver se eles publicam!